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20 de janeiro de 2014

Por Camila Souza/Diário de Pernambuco

De chapéu de sol aberto, Capiba abraçou o frevo-canção em mais de 90 composições ao longo da vida. Mas provou quão plural era ao compor de baião a maracatus. O autor de clássicos como Maria Bethania e Serenata suburbana teve a obra gravado por Nelson Gonçalves, Claudionor Germano, Chico Buarque, Gal Costa e muitos outros. “Ele talvez tenha sido o compositor pernambucano mais eclético”, pontua Renato Phaelante, pesquisador de música popular brasileira e autor do livro Capiba é frevo, meu bem (1986).

O lado B do filho ilustre da cidade de Surubim, abafado por sucessos como Madeira que cupim não rói e Oh, bela, virou disco nas mãos dos produtores Pedro Rampazzo e Paloma Granjeiro, do selo Sambada Comunicação e Cultura. Com lançamento previsto para o fim do semestre, Capiba, elas e outras canções, com produção musical de Missionário José e direção de Marco Cesar,  mostra um autor pouco conhecido do público.

Abre as cortinas para um compositor respeitado pelos caciques da bossa nova, sambista e sensível à cultura africana e à classificada como erudita. Dez cantoras, entre elas Karynna Spinelli e Ylana Queiroga, interpretam faixas out do instrumentista – em contraposição a gravações anteriores feitas, na maioria das vezes, por homens. “Escolhemos canções importantes na trajetória dele. Todas rearranjadas em busca de contemporaneidade”, conta Paloma.

A viúva do pernambucano, dona Zezita, de 82 anos, participou da pré-produção. “Ele fazia músicas para o Carnaval por deleite. Mas há canções lindas em outros gêneros. Uma delas é Cais do porto. Se eu fosse cantora, seria a primeira que eu gravaria”, revela. Nascido no seio de uma família de artistas, desde menino, Capiba lidou com música. Primeiro, tocando trompa na banda da qual o pai era regente. Depois, aprendendo piano, a contragosto, para ajudar nas despesas de casa. Já no Recife, na década de 30, fundou a Jazz-Band Acadêmica.

Compôs gêneros norte-americanos e enveredou por outros caminhos de ritmos brasileiros, como a toada, o choro e o batuque. Escapou com um tango, Flor das ingratas, com o qual venceu o prêmio da Revista Doméstica (1929). “Escolhi a canção que, para mim, preenchia todos os requisitos, remeti à revista e fiquei aguaradando o resultado daquela minha afoiteza. Depois fiquei nervoso. Não tratei do assunto com ninguém. Se eu nao fosse classificado, ninguém iria saber do meu fracasso”, revelou no Livro das ocorrências (1985, Coleção Pernambucana).

Capiba era perfeccionista. E vaidoso. Em 1966, ao participar da primeiro Festival Internacional da Canção Popular, teve três canções, das cinco que enviou, classificadas entre as 36. Os quase 10% de aprovação renderam muita autopromoção nas rodas de amigos. Umas das faixas escolhidas foi Canção do negro amor, letrada por Ariano Suassuna, seu compadre. Mas o compositor sabia das limitações. Certa vez, a convite de Ary Barroso, nos idos de 1962, admitiu que não sabia cantar.

Foi em uma participação no programa veiculado na TV Tupi, no Rio de Janeiro. Por essa época, o samba A mesma rosa amarela, versado por Carlos Pena Filho, ecoava nos quatro cantos do país. E embora muito ouvisse, o apresentador não sabia a paternidade da canção. “Os locutores das rádios não dizem os autores”, esbravejou. Lisonjeado, o autor da música começou a executá-la ao piano. Ary interrompeu-o: “Cante!”. Capiba seguiu apenas tocando. “Cante! Tom Jobim e Vinícius de Moraes estão cantando.” Ele, prontamente, respondeu. “Estão cantando, mas estão cantando muito ruim.” Capiba tinha o dom de compor. E entrou para a história assim.

O som da vida

Renato Phaelante, autor do livro Capiba é frevo, meu bem (1986), descreve como as músicas compostas pelo surubinense ajudam a conhecê-lo melhor. As faixas selecionadas para o álbum Capiba, elas e outras canções, rearranjadas com toques contemporâneos, situam a criação do artista na história e pontuam sua trajetória com a diversidade dos gêneros brasileiros – embora a associação com o frevo sempre se impusesse na memória coletiva. Faixas:

Começo de vida (Capiba) – toada
Arranjo: Missionário José – Intérprete: Rogéria (PE)
Nos anos 1950, o Brasil conhecia Carmem Costa, uma cantora nascida no Rio de Janeiro de voz diferente e de intensa força interpretativa. Ela lançou a toada pelo selo Copacabana, em 1956, oferecendo a Capiba a mesma evidência dos grandes nomes da MPB.

Eh uá Calunga (Capiba) – maracatu
Arranjo: Juliano Holanda – Intérprete: Karynna Spinelli (PE)
Capiba é considerado o pioneiro da apresentação do som dos maracatus nos salões, numa época de grandes preconceitos, a década de 1930, quando realizou turnê pelo Sul do país com a Jazz Band Acadêmica. Em 1937, no auditório da Rádio Tupi (RJ), ele lançou esse maracatu, gravado em seguida pela cantora Mara Henrique.

Serenata suburbana (Capiba) – valsa
Arranjo: Metá Metá – Intérprete: Juçara Marçal (SP)
Inicialmente gravada como valsa, tornou-se conhecida, depois, como guarânia, nas vozes de vários intérpretes, desde 1955, quando foi gravada pela primeira vez por Orlando Correia. Sua última gravação recebeu a interpretação de Ney Matogrosso no CD Mestre Capiba, produzido por Raphael Rabello.

Dia cheio de Ogum (Capiba) – afro-xangô
Arranjo: Caçapa e Hugo Linns – Intérprete: Alessandra Leão (PE)
Toada afro-xangô da obra de Capiba, lançada em 1966, pelo intérprete baiano Edy Souza, concorreu ao I Festival Nacional de MPB da TV Record, tornando-se uma das classificadas. Mostra o espírito competitivo do autor. É uma de suas músicas menos conhecidas.

Campina cidade rainha (Capiba) – valsa
Arranjo: Marcos FM – Intérprete: Fernanda Cabral (DF)
Numa das primeiras tentativas de resgatar o ecletismo de Capiba, a Fábrica Rozenblit lança, em conjunto com a Fundação Joaquim Nabuco, em 1982, o LP Capiba ontem, hoje, sempre, com o cantor Expedito Baracho. A música é um homenagem à Campina Grande, na Paraíba, onde Capiba viveu parte da vida.

Resto de saudade (Capiba) – samba-canção
Arranjo: Ivan do Espírito Santo – Intérprete: Solis (PE)
A palavra saudade é uma constante na obra do pernambucano. Nostálgico em diversos momentos de suas composições, ele unia o gosto pelos sons melódicos e harmoniosos. Nessa música, não foi diferente. Ela foi lançada em 1963 por Carlos Nobre.

Quando se vai um amor (Capiba) – canção
Arranjo: Fernando Rangel – Intérprete: Cláudia Beija (PE)
A canção exacerba mais uma vez o espírito romântico de Capiba, desta vez, em pleno Carnaval, à espera da volta de um grande amor. A música foi lançada nacionalmente em 1950, na interpretação de um dos ídolos da Era de Ouro do Rádio, o cantor Carlos Galhardo.

Ai de mim (Capiba) – samba
Arranjo: Nana e Missionário José – Intérprete: Nana (BA)
No início da década de 1960, quando era lançado o sistema de alta fidelidade, a fábrica de discos Mocambo/Rozenblit lançava o LP Sambas de Capiba, fase bossanovista e romântica do artista, na voz de Claudionor Germano. Entre os sambas, se destacava Ai de Mim, parceria com o poeta Carlos Pena Fillho.

Sem pressa de chegar (Délcio Carvalho e Capiba) – samba
Arranjo: Yuri Queiroga – Intérprete: Ylana Queiroga (PE)
Competindo em festivais pelo Brasil afora, Capiba conhece outros compositores. Dentre eles, o carioca Délcio Carvalho, famoso nas rodas de samba. Os dois se tornam parceiros com essa música. Inédita em disco, foi lançada no ano 2000, no CD A Lua e o conhaque, com interpretação de Carvalho.

Claro amor (Capiba e Carlos Pena Filho) – bossa nova
Arranjo: Paulo Arruda – Intérprete: Vanessa Oliveira (PE)
Uma demonstração inequívoca do Capiba romântico, música que faz parte, ainda, do LP Sambas de Capiba, na voz de Claudionor Germano. Da parceria com Pena Filho, frutificou também o sucesso A mesma rosa amarela, faixa que os tornou figuras das mais importantes da bossa nova.

Ilustração: Black Zebra/DP